
Entrevista com Bettina Koster (2006) - Saiba mais sobre a rainha do underground alemão
Leia abaixo a tradução de trechos de uma entrevista cedida por Bettina Koster para Pati Hertling, na primavera de 2006, e conheça outros lados da história e da personalidade dessa grande e influente artista underground alemã:
À respeito da Malaria!
(...) Com Malaria!, vocês alguma vez se consideraram uma banda política, uma banda pre-riot grrrl* , ou algo do gênero?
Bem, primeiro de tudo, de certo modo: sim. Apesar de não trabalharmos nestes termos, porque só queríamos fazer o que desejávamos. Mas nós percebemos que isso era muito difícil. No começo, nós íamos para o palco depois da passagem de som, e os roadies, ou quem quer que fosse - esses caras com camisetas "oficiais" - diziam, "Oh, vocês sabem meninas, nós afinamos suas guitarras! E nós dizíamos, tipo: "Não, nós temos nossa própria afinação!"
Como tudo aquilo surgiu? Vocês começaram em Berlim, certo?
Sim, começamos em Berlim. Nós fizemos uns poucos shows, mas ninguém queria nos ver na Alemanha. Então partimos e tocamos muito na Holanda, Bélgica e França. Então, fomos à nova Iorque e tocamos em Londres. E quando as notícias chegaram, que nós havíamos tocado naqueles lugares, então eles se interessaram por nós aqui também. Atualmente somos realmente únicas: desde o começo eles realmente gostaram de nós em Nova Iorque - e em Paris e Londres.
Em que tipo de clubes vocês tocavam?
Em Nova Iorque nós tocamos no Mud Club, Studio 54, Danceteria. Você sabe, como todos, são clubes legais. Nós tocamos no Les Bains Douches em Paris e em todos os lugares em Londres. Houve um desses shows, neste clube chamado Bat Cave, em Londres: nós vivemos momentos legais lá, porque havia talvez apenas 300 pessoas, mas eles eram todos pop stars. Então, foi bem divertido. Nós nunca tivemos apelo de massa, mas sempre tivemos nossa audiência. Nunca foi exagerado: era tudo somente real e nós éramos apenas super legais. Nós tocamos com Nina Hagen no Studio 54 e após isso, o Village Voice escreveu: "Nina Hagen e Malaria! ousaram tocar no Yom Kippur*, e elas não tinham a menor idéia!". Nós tocamos de botas pretas de cavaleiro, calças de cavaleiro, camisas pretas, e usamos cravos vermelhos. Eles não tinham idéia de que um cravo vermelho era o simbolo do socialismo. E também havia a luz de palco do musical da Broadway, Frankenstein, e parecia bombástico! Foi um grande escândalo - parecíamos nazis no Yom Kippur! Mas nós não fomos avisadas...
Óbviamente eu sou muito jovem para saber, mas eu sempre tive a impressão de que vocês foram muito influentes na atualidade. Também, onde quer que você leia livros sobre o seu tempo, sempre há uma referência à Malaria!.
Eu acho que foi porque nós eramos todos amigos. Quero dizer, tocamos muito com Siouxsie & The Banshees, e com o New Order. Nós éramos apenas um bando de garotos nos divertindo. Eles também nos ligaram uma vez com uma banda que não fazia tanto sucesso nos Estados Unidos porque eles sempre teriam sua eletricidade desligada: era Birthday Party. Então, nós convivemos com várias bandas legais. Mas só funcionou porque o que fazíamos era muito verdadeiro. Não era manufaturado. Tínhamos todas menos de 20 anos - então, nós éramos realmente muito jovens. E nada nos impressionava - porque nós não sabíamos de nada. Nós não achávamos que aquilo era especial; parecia normal. E as pessoas com quem lidávamos também eram pessoas muito legais. Eacho que, de certo modo, as pessoas que fazem mais sucesso são as mais legais. Catherine Deneuve uma vez foi à um de nossos
shows em Londres - no prestigiado ICA. Ela apenas estava lá, parada, com um vestido vermelho, na direção do fim da sala, sob a luz vermelha da Saída, haha. Aquilo foi muito legal. Mas, então, ela não me deixou sozinha - ela me seguiu. E ela ficou louca quando eu fui para casa sem ela! No entanto, desde então, eu sempre digo sim quando uma atriz famosa me faz propostas. Mas, eu tenho que dizer, ela era bem legal e bem "pé no chão". Ela estava em Londres filmando The Hunger, com Susan Sarandon e David Bowie.
Quando foi?
Por volta de 1983, bem perto do fim da Malaria!
À respeito do documentário co-produzido por Bettina em Burma, país da Ásia
O documentário está pronto?
Sim! Mas nós precisamos fazer uma segunda versão. A primeira versão está pronta, mas está muito repetitiva porque há muitos depoimentos. Por exemplo, você só ouve uma pessoa após a outra contando como os soldados as estupraram; como elas são usadas como carregadoras e obrigadas a carregar material militar; como as pessoas são explodidas por minas terrestres, e como o regime usa a AIDS como uma arma de guerra. Eles reunem pessoas infectadas com AIDS e, quando a doença deles piora, os transportam de ônibus para as regiões da fronteira, onde eles são deixados para infectarem as minorias étnicas.
Isso é horrível. Então, como você se envolveu em filmar o que estava acontecendo?
Bem, foi por coincidência. Nós estávamos em Rangoon e queríamos ir para Inle Lake, com seus "swiming gardens", que são campos de vegetais cultivados. Muito famoso. Muito, muito bonito. Então, nós alugamos um carro, mas ele quebrou. E alugamos outro, que também quebrou. Então, nós acabamos encalhadas no meio do nada com caixas de Evian, Pringles e toalhas de papel, haha. Então, alguém com uma caminhonete apareceu e nos levou para uma cidade próxima. Uma vez lá, eles nos arrumaram um taxista. À noite, ele usava seu carro como ambulância para trazer os rebeldes para o hospital, onde os médicos secretamente os operavam.
O governo sabe disso?
Não, pois era tudo feito muito secretamente. Por isso, era muito difícil colocar gente de Burma no filme, porque eles tinham muito medo: há espiões por todo lado. Então, nós decidimos ir para os campos de refugiados na Tailândia, na fronteira Thai-Burma, onde encontamos alguns combatentes pela liberdade e pessoas que estavam engajadas na educação nos campos. Quando começamos a trabalhar com esses caras, nós ficamos mais e mais envolvidas na situação - e também com um dos combatentes pela liberdade, Ler Wah Lo Bo. Ele era um professor, mas juntou-se aos rebeldes após sua prima ser decaptada, com uma serra manual, pelo exército de Bruma, em 1980. Ele mesmo era procurado pelo exército de Burma. Ler Wah pegou uma versão bruta de nosso filme e apresentou-a na embaixada canadense, e agora ele tem asilo político no Canadá. Então, foi ótimo.
Então, foi graças à sua filmagem.
Sim, foi bem legal. Mas, por outro lado, ainda não está pronto para uma exibição geral, porque é muito longo e repetitivo. Então, é por isso que estamos trabalhano numa nova versão, que mostre mais Isabel e eu. Quero dizer, ainda mostra as coisas importantes, mas também mostra como nós chegamos lá como completas idiotas, e como ficamos mais e mais envolvidas. Na filmagem, eu estava sempre usando esse chapéu laranja de malha, porque jornalistas não eram admitidos em Burna - ou cineastas - então nós fingíamos que éramos turistas realmente estranhos. Apesar disso, no fim, ficou um pouco mais complicado, pois a inteligência militar estava nos seguindo.
Eles descobriram o que vocês vinham fazendo?
Sim. Porque nós íamos lá frequentemente e também porque estávamos andando com essa freira lésbica, que já era perseguida pela inteligência militar. O nome dela era Oliver Yang, seu apelio era "Sra. Pernas-Cabeludas", e ela era uma princesa Sham. Estou escrevendo um livro sobre ela.
Espere, o que é uma princesa Sham?
As pessoas Sham são um grupo étnico que se engajou numa guerra civil intermitente com Burma desde 1984. Olive já tinha seu próprio exército quando ela tinha 20 anos. E para financiar sua luta contra o regime de Burma, ela teve a idéia de trocar ópio por armas. Então, a CIA entrou na história, e ficou sendo, para eles, como que o primeiro teste de campo para o que eles depois fizeram na América do Sul e América Central. De qualquer maneira, apesar de que Olive combatesse o regime, ela nunca foi presa por isso. De qualquer maneira, ela vivia abertamente como uma lésbica, e quando ela precisou de permissão especial do ditador para casar com sua namorada, foi demais para sua família. Eles a prenderam por alguns anos. Sua namorada era Wa Wa Win Shwe, uma das atrizes mais famosas de Burma. Os Burmeses são totalmente loucos por seus filmes. Ela é bem velha agora. Eu adoraria tê-la entrevistado, mes eu não posso mais ir para Burma - por causa do filme. Estou na lista deles de "pessoas indesejáveis", hahaha Afortunadamente, meu amigo Martin está por lá.
Você tem que se comunicar secretamente com ele?
Bem, não, ele está na Tailândia agora. Quando você está em Burma, nenhuma comunicação significativa com o mundo exterior é possível. Uma vez, estávamos lá, no telefone, falando com alguém na Suíça, quando ouvimos alguém tossindo realmente alto na linha. Ele pediu: "Por favor, não falem tão rápido."
Mas agora a filmagem já está finalizada?
Sim, a primeira versão foi lançada em 2003. Se chama Burma: Anatomy of Terror, e tem mais ou menos uma hora e meia de duração. Susan Sarandon narrou-o, o que foi bem legal da parte dela. Ele fez isso em troca de algumas flores
Ela é uma grande ativista, não é?
Sim. Mas, realmente chocante, foi quando estávamos pensando em começar a segunda versão, e o clima político subitamente mudou. Foi depois do 11 de Setembro. A diplomacia americana estava previamente muito aberta para levantar o caso por Burma. Havia até a possibilidade de que Bill e Hillary Clinton fizessem uma pequena sinopse para o nosso trayller. Mas então havia um grande problema: Susan Sarandon era a narradora, e nem Bill e nem Hillary poderiam se associar à ela de nenhuma maneira, por causa da oposição dela à guerra no Iraque. Os Clintons são muito vulneráveis a ataques. Aparentemente, não permitiram que Bill assistisse à filmagem que tínhamos. (...)
*pre-riot grrrlRiot grrrl (ou riot grrl) é um movimento abrangindo fanzines, festivais e bandas de hardcore punk rock e feminismo. A intenção do movimento é informar a mulher de seus direitos e incentiva-las a reinvindica-los. Uma das principais formas além de protestos foi o uso da música. A carreira músical feminina se resumia apenas como vocalistas, ou qualquer função em bandas de músicas leves, mesmo assim mal vistas. O principal ponto foi montar bandas de rock, com instrumentos pesados como baixo e guitarra com muitos efeitos e distorção, estilo e instrumentos inicialmente considerado como masculinos. Incentivando cada vez mais as mulheres a montarem suas bandas, criar fanzines feministas, e assim expressar suas opiniões e vontades. O gênero musical riot grrrls apareceu na década de 90 como resposta as atitudes machistas punks.
*Yon Kippur - um dos dias mais importantes para o judaismo
Fonte:
http://www.glumagazine.com
Leia a entrevista na íntegra, em inglês, no link: http://www.glumagazine.com/node/33
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