Olá a todos.
Demorei um bocadinho pra atualizar meus fóruns, mas, cá estou, cumprindo com o que prometi: esta é a primeira edição de meu diário de viagem, cruzando as diversas cidades (cenas) que já tive oportunidade de conhecer nesses últimos 3, quase 4 anos de banda.
E nada mais natural que começar falando sobre a cena de minha cidade: Fortaleza (carinhosamente apelidada de "Mortaleza" pelos adeptos locais).

Uma das coisas mais comuns que perguntam ao Plastique Noir em entrevistas, tendo já sido questionada até pelos portugueses da Elegy Iberica, é: "como uma cidade ensolarada, repleta de belas praias e com um astral tão positivo, é capaz de parir uma banda gótica?" A resposta para isso estende a idéia restritiva implícita na própria pergunta, já que aqui não temos apenas nossa banda atuando, mas toda uma pequena movimentação sob outros aspectos pertinentes a essa coisa de "cena". Isso tem como justificativa as mesmas condições sócio-econômico-culturais que ajudaram a banda a dar início às suas atividades. É preciso entender a dinâmica da cidade e um pouco de sua história recente.
Fortaleza é hoje a quarta maior metrópole do país. O motor de seu crescimento acelerado nos últimos anos provém da industrialização intensa desde os limites periféricos da cidade em direção ao interior do estado; do turismo e especulação imobiliária da orla; e do grande furacão do setor de serviços que fica bem no meio entre essas "zonas" citadas. Claro que, no meio desse processo, existem as disparidades sociais que, no mesmo espaço urbano, comporta a conflituosa relação entre aqueles que têm acesso às benesses tecnológicas e a uma cultura globalizada (porta de entrada para simbolismos subculturais, inclusive o gótico) e a massa de excluídos que ajudam a pintar o panorama metropolitano em cores pesadas.
Talvez não seja à toa que a cena gótica da cidade concentre suas atividades na região da Praia de Iracema. A área é bastante cobiçada por empresários do ramo imobiliário, turistas ávidos por diversão sexual e os agentes da rede de entretenimento noturno, musical e hedonista. O que é duramente real e o que é docemente surreal, lado a lado.
Mas nem sempre foi assim. Durante o final dos anos 80 e início dos 90, quando Fortaleza contava com pouco mais de uma dezena de góticos, as atividades se concentravam na periferia industrial, normalmente em torno de uma única banda: a extinta Rebel Rockets.
Dessa formação pós-punk, emergiram peças importantes como Max Bernardo, mais tarde membro do Plastique Noir, e o casal de DJs Cyphercry Duo. Foi por volta do ano de 2005 que esta turma de amigos convergiu junto a outras duas, rumo à forma tomada pela cena atual. Por um lado, havia alguma movimentação no Curso de Comunicação da UFC, encabeçada por mim, Márcio Mazela, o poeta Ricardo Rifane e o historiador Eudes Jr., sempre com intenção focada em formação de banda e não exatamente em construção de cena; e, na outra ponta, vinha Rafael "Babuê" (DJ de Sade), amplamente integrado ao circuito de rock alternativo/independente e música eletrônica das principais boites da cidade. Corriam por fora gente "das antigas" que contribuíram com ricos referenciais: Hansen (da lendária banda Harry, na época residente na cidade) e Ximenes Filho (DJ Hellektro).
(continua)
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Airton S (Plastique Noir)
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